Para que serve a filosofia?
A filosofia responde a problemas que surgem da nossa capacidade natural para pensar. O mesmo acontece com a ciência, a religião e a arte. Portanto, em grande medida, a filosofia serve para o mesmo que serve a ciência, a religião e a arte: serve para compreender melhor o mundo, os outros e nós mesmos. Mas será que só serve para isso? Afinal, nas artes, nas religiões e nas ciências, fazem-se coisas úteis — não nos limitamos a compreender melhor o mundo. Por exemplo:
- A ciência amplia a nossa compreensão do universo; mas também permite curar a tuberculose.
- A religião amplia a nossa compreensão do nosso lugar no universo; mas também oferece conforto e orientação espiritual aos fiéis.
- A arte, como a literatura, por exemplo, amplia a nossa compreensão da condição humana; mas também produz obras de grande valor artístico, que nos inspiram e maravilham.
Também a filosofia não se limita a ampliar a nossa compreensão. A compreensão que a filosofia nos oferece do mundo, de nós e dos outros ajuda-nos a mudar a nossa vida. Vejamos dois exemplos.
Em 1869, um importante filósofo inglês chamado John Stuart Mill publicou um livro intitulado A Submissão das Mulheres. Neste livro, Mill defendia, com argumentos filosóficos, a igualdade política e social das mulheres. Hoje, parece-nos óbvio que as mulheres não devem ser discriminadas em nenhum aspecto da vida social. A filosofia pode mudar as nossas vidas porque pode mudar as nossas convicções.
Em 1975, Peter Singer, um importante filósofo contemporâneo, publicou um livro com o título A Libertação dos Animais. Nesse livro, Singer procura mostrar que o modo como tratamos os animais na indústria pecuária e na ciência é moralmente indefensável; os animais não podem ser tratados como se fossem meros objetos. Em resultado do seu estudo, os movimentos de libertação animal ganharam legitimidade. Hoje, muitas das maiores empresas deixaram de testar os seus produtos em animais. A filosofia pode mudar as nossas vidas porque pode mudar as nossas convicções.
Os seres humanos entregam-se a diferentes atividades. A religião, a ciência, a arte e a filosofia têm cada uma a sua utilidade.
- A religião é útil porque fornece orientação e conforto espiritual aos seus fiéis. A filosofia fornece orientação a qualquer pessoa, independentemente de ser ou não crente. E mostra que muitas das respostas que acriticamente estaríamos dispostos a aceitar são insatisfatórias.
- A ciência é útil porque nos ensina a curar a tuberculose, por exemplo. A filosofia ensina-nos a enfrentar os problemas morais levantados pela ciência, como a eutanásia ou o aborto.
- As artes são úteis porque produzem obras que nos inspiram e maravilham. A filosofia produz ideias e argumentos que nos inspiram e maravilham, e põe a descoberto problemas que nos convidam a dar o nosso melhor para tentar resolvê-los. E isso faz de nós seres humanos melhores, seres humanos mais completos.
Em suma: as razões pelas quais a filosofia serve para alguma coisa são as razões pelas quais as artes, as ciências e as religiões servem para alguma coisa. Todavia, é verdadeiro que muitos dos problemas, teorias e argumentos da filosofia não têm qualquer utilidade prática. Mas também a maior parte do que constitui as religiões, as artes e as ciências não tem qualquer utilidade prática. Mas, mesmo assim, essas coisas podem ter valor.
As coisas sem utilidade prática podem ter valor porque o conhecimento é algo suficientemente importante para ter um valor próprio. Nada ganhamos em conhecer a anatomia dos dinossauros que se extinguiram há 65 milhões de anos, nada ganhamos em saber como aconteceu o Big Bang. Mas desconhecer todas essas coisas é viver uma vida mais pobre e mais provinciana. É por isso que há pessoas que gostam de ampliar o conhecimento e a compreensão, independentemente de isso servir ou não para alguma coisa. E isto é algo que não acontece apenas aos filósofos; acontece aos físicos, aos biólogos, aos músicos, aos escritores, etc.
Em suma, a filosofia tem valor, mesmo que na sua maior parte não tenha qualquer utilidade prática, porque o conhecimento é um valor em si. Por outro lado, nunca podemos saber quando uma ideia aparentemente inútil pode vir a ser útil. A lógica, por exemplo, parecia uma área do conhecimento completamente inútil. Mas hoje temos computadores graças aos estudos realizados pelos especialistas em lógica. Logo, mesmo que só as coisas úteis tivessem valor, nunca poderíamos saber de antemão quais das nossas ideias se revelariam úteis.
Acresce que a filosofia consiste, em grande parte, em discutir ideias com argumentos rigorosos. Isto dá-lhe uma utilidade muito importante: quem for capaz de discutir filosofia claramente, será capaz de discutir claramente qualquer assunto (desde que disponha da informação relevante). A filosofia é útil para a vida pública de um país porque nos ensina a pensar melhor.
A filosofia exercita as nossas capacidades argumentativas. Ficamos com uma capacidade acrescida para avaliar e discutir ideias, argumentos e problemas. Do mesmo modo que quem estuda pintura fica com um olhar mais sensível às cores e formas, quem estuda filosofia fica mais sensível ao modo como fundamentamos as nossas convicções e decisões.
Quem sabe argumentar bem toma melhores decisões, porque as decisões que tomamos são baseadas em argumentos. E esses argumentos podem ser melhores ou piores. Todos queremos melhores decisões (e portanto melhores argumentos) quando essas decisões afetam a nossa vida. A filosofia pode ajudar-nos a fazer isso.
Desidério Murcho
https://criticanarede.com/oqueeafilosofia.html
Trecho do texto publicado na Revista de Filosofia Crítica na Rede, por Desidério Murcho em 14 de setembro de 2015.